Gente, muito trabalho me impediu de atualizar o blog. Agora, digo hoje, estou mais sossegado e posso escrever minhas impressões sobre a República Democrática do Congo (RDC), ex-Zaire. Bom, daqui saíram muitos negros que foram levados para o Brasil durante o período da escravidão. O povo bantu, da qual originam os congoleses, enriqueceu nossa língua com palavras como caçula (o filho mais novo) e quilombo, que ainda hoje é como se denominam habitações de palha encontradas no interior da RDC. Minha ligação com esse país é secular. Aqui, a corrupção não é muito diferente do Brasil (talvez seja herança, não sei?!), mas muito mais pungente. As coisas só funcionam se dermos uma "motivação". Uma autorização para qualquer coisa só é agilizada se pagarmos algo por fora. Caso contrário, eles retardam ao máximo. Se você abre um sorriso, alguém já aparece cobrando um imposto por tamanha alegria. Bom, isso é notório entre os próprios nacionais. Eles mesmos admitem que são assim. Alguns falam em tom de reprovação, mas os flagro cometendo as mesmas infrações apontadas cotidianamente. Por essas questões, tive que tomar uma série de precauções. Freqüentar, por exemplo, lugares tradicionalmente de negros jamais. Já fui inclusive "ameaçado de morte" em um gueto. Nunca mais voltei ao local. Customo freqüentar casas noturnas de libaneses, portugueses, franceses. Principalmente uma de um libanês chamado Mohamed. 90% dos libaneses do sexo masculino aqui chamam-se Mohamed. Brincadeira, mas há uma quantidade absurda de Mohamed aqui. Quando não é Mohamed, é Ali. Já conheci uns sete com esse segundo nome. Lembrei do diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, e do livro de sua autoria "Sobre o Islã". Comecei a pesquisar mais sobre o povo libanês. Eu sou um jornalista nato! Bom, Ali é um nome comum entre mulçumanos, religião do todo-poderoso do jornalismo da Globo. A radicalização religiosa no Líbano fez com que muitos jovens viessem tentar a vida aqui no Congo. 20 anos de Guerra Civil, depois veio o apogeu do Hezbollah, após isso tudo mais guerra em 2006 e economia instável fez com que a diáspora libanesa acontecesse pelo mundo. Muitos rapazes entre 20 e 30 anos vivem por aqui trabalhando em magazines, lanchonetes, indústrias... Todos deixam a família, namoradas, amigos para tentar sonhar com dias melhores. Meu grande amigo aqui, o Mohamed Marouni (na foto, eu e ele num momento etílico no Saloon VIP), terminou um curso superior em Gestão de Negócios no Líbano e veio trabalhar na RDC numa empresa que produz sabão. Longe de casa, Marouni, como ele prefere ser chamado, vive numa residência com outros seis libaneses desde janeiro deste ano. O fundamentalismo mulçumano assusta mais que o preconceito racial congolês. Bom, lá (digo, no Líbano), eles costumam resolver seus problemas com armas de fogo e bombas. Aqui, por mais que a violência seja latente, não soube ainda de crimes raciais. Eles só ameaçam. Mas é melhor tomar muito cuidado. No mais, minha estada em Kinshasa tem sido muito válida para mim (vocês podem perceber na foto) como ser humano e como profissional. Mas me lembro sempre do período que trabalhava com televisão no Recife e cobria prisões de "mulas" que tentavam embarcar para a Europa com cocaína no estômago. Quase sempre eram congoleses. Eita povinho para gostar de uma encrenca.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
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2 comentários:
Demorou mais abalou,como sempre uma narrativa criativa e sagaz.
Abracao meu amigao
Beijos
Chris
Muito bom seu blog, bem redigido , parabéns!!!
Assim que puder faça-me uma visita.
Blog: Pelo Corredor da Escola
http://pelocorredordaescola.blogspot.com
Valeu!!!
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