segunda-feira, 30 de junho de 2008

Primeiro dia de trabalho

Acordei com uma baita dor de cabeça, por conta das Skol belgas tomadas na minha recepção ontem. Eram quase 8h da manhã. Levantei-me e fui tomar banho, ainda tonto devido a não adaptação ao fuso horário. Em seguida, fomos à empresa. A cidade estava vazia, pois hoje comemora-se a independência da República do Congo. A África Gaming LTDA localiza-se no centro de Kinshasa. Fomos recebidos pelos seguranças: Tigre, Papapier e Chibambo, este último fala um pouco de português. Conheci as dependências da empresa. O sorteio será feito lá mesmo numa ampla sala aos sábados. Mas o cenário ainda não foi definido. Passei a manhã discutindo com a diretora de marketing, Adriana Gomes, seu formato. Fiz algumas sugestões e já viajei na campanha publicitária. Estou bastante empolgado. Fomos almoçar num restaurante libanês, o City Market, que tem, anexo, um supermercado. Comi um philadelfia, que é um pão baguete com carne ensopada. Finalmente, vi gente de outra cor. Parece um comentário racista, mas é que não tinha visto gente branca ainda aqui. Fiquei encantado com o lugar. Voltarei mais vezes lá. Fiz algumas comprinhas, pois tinha perdido meu desodorante, creme de barbear, shampoo e condicionador no embarque em Guarulhos, pois estavam na minha bagagem de mão e não podem ser levados dentro da aeronave em viagens internacionais. Isso depois do 11 de setembro. Maldito Osama! Paguei um precinho um pouco salgado para repor: cerca de 50 dólares. Tenho que economizar, apesar de não ter despesas aqui com alimentação nem transporte nem hospedagem. Voltamos na caminhonete Mitsubshi cabine dupla da empresa, um dos muitos carros importados que podem ser vistos circulando nas ruas. Depois a gente fala de má distribuição de renda no Brasil. Aqui, a coisa é muito discrepante mesmo. Na minha sala (olha, que chique: "Minha sala!"), fiz a segunda postagem do blog, após conversar com meu chefe sobre as peças publicitárias de lançamento do produto. Em seguida, voltamos para a república. No caminho, deparei-me com crianças pedintes nas ruas e isso me emocionou. Quase chorei vendo um garotinho sozinho numa festa de rua em homenagem ao dia da independência. Bom, chegamos em casa e vim para o meu quarto. Arrumei minhas roupas no guarda-roupa e, depois, segui para a cozinha. Jantei e lavei os pratos do fim de semana. Faltou água no fim do processo. Aliás, aqui são poucos os que têm água encanada e luz elétrica. A casa tem duas caixas e um gerador. Acho que sequei uma delas lavando a louça, mas também era muita coisa. Deixei alguns copos ensaboados. A madame Rosa, a doméstica da casa, finaliza isso amanhã. Detalhe a ser comentado: no fim de semana os funcionários folgam e somos nós que temos que cozinhar e limpar tudo. Tarefas divididas. Como já disse na primeira postagem, somos em 7. Seis homens e uma mulher. Adriana Gomes reina entre os marmanjos. Mas é casadíssima. Seu esposo vive em Angola. Vem vê-la aos weekends. Em francês, fim de semana se escreve da mesma forma que em inglês. Tentei ver A Favorita, mas faltou energia e o gerador não ativou a TV de imediato. Não tive paciência de esperar o sinal chegar e vim para o quarto postar mais esse relato do meu dia. Vou dormir. Amanhã, a labuta me espera. Finalmente, vou conhecer meus funcionários. Olha, que chique!

Predestinação?

No início de maio, tive um sonho que morava em África. Pouco tempo depois, um amigo me disse que foi chamado para trabalhar num produto como um bingo na TV, na República do Congo, mas recusou por estar convalescendo de um infarto. Indicou-me. Logo em seguida, fui chamado pelo dono da empresa para uma entrevista. Ele gostou muito de mim e me contratou no ato. Em três semanas, organizei toda a minha vida: tirei visto, vacinei-me contra as doenças endêmicas da África e segui viagem. Na vinda, assisti o sol nascer em pleno Oceano Atlântico. Foram oito horas de viagem até Johannesburg, minha primeira parada na África. Viajei ao lado de um moçambicano que tinha um cheiro de azedo insuportável. Seria meu primeiro contato com o odor que exalam os africanos. Antes da decolagem, os comissários de bordo da South African espalharam pelo ar um aerosol, tipo Bom Ar, acredito que para tirar a enhaca que conserva este povo. Bom, a viagem teria sido tranquila se não fosse pelo mal estar que o azedume me provocou. Tive que ir diversas vezes ao banheiro vomitar. Como o vôo estava cheio, não havia como trocar de assento. O moçambicano, de nome Luís Ferreira, só não ficou negativamente na minha memória, porque ele era super educado e gentil. Eu estava na janela e ele deu passagem para que eu fosse ao banheiro, diversas vezes, sem se mostrar irritado. Chegou a me ajudar na hora de entender o que dizia um comissário de bordo, que se dirigia a mim com seu inglês misturado com o africans. Africans é um dialeto falado na África do Sul, principalmente, entre fazendeiros de descendência holandesa, do interior do país. É uma mistura de holandês, com inglês e com o dialeto zulu. Bom, Luís foi super atencioso. Incusive me ajudou no desembarque em Johannesburg. Uma city cor de tijolo. Tudo é marrom e a vegetação das savanas, que rodeia o local, ajuda a reforçar esta cromia. Cheguei às 8h22 da manhã (3h da madruga, no Brasil), com a temperatura de 11 graus Celsius. O aeroporto é imenso. A cidade se prepara para receber os jogos do Mundial de 2010 e está reformando tudo. Atravessei várias esteiras até chegar à imigração. Não tive problemas no ingresso no país. A atendente apenas me fez uma pergunta: "Which does the reason of the visit?". Respondi, no meu inglês prosaico: "To work". E entrei sem maiores problemas. No saguão do aeroporto era esperado por Mahomed Adamo, que portava uma plaquinha com meu nome escrito. Mahomed é um moçambicano, que vive em Johannesburg há 15 anos, fugido da pobreza do seu país. Seu trabalho é receber estrangeiros e conduzí-los à sua hospedaria. Ele me levou até sua casa, no bairro de Kensignston, no seu Toyota Cressida de ano 2000, pois sua guesthouse estava lotada. No caminho, pude ver a primeira capa de um jornal local que estampava a manchete: "Rule of Violence". Perguntei do que se tratava e Mahomed me respondeu que muitos sul-africanos estavam atacando estrangeiros e queimando-os vivos. A xenofobia se deve à carência de postos de trabalhos no país e que muitos ex-patriados estavam tendo mais oportunidades, pois se submetiam a péssimas condições de trabalho e salários mais baixos. A perseguição é grande, principalmente, aos estrangeiros de Moçambique, país que fica acima da África do Sul e um dos maiores exportadores de mão-de-obra barata para este país. Perguntei a Mahomed se ele não temia essa onda de xenofobia e ele me respondeu que sim, com sua testa bastante franzida. Rezei baixinho para o Deus dele, Alá, protegê-lo. Mahomed é muçulmano, assim como toda a sua família. Ele tem quatro filhos: Jade, de 21 anos, e Yasser, 19, gerados no seu primeiro casamento. Sua esposa morreu de câncer há 12 anos. Ele casou-se novamente com Mila há 11. Ela é uma moçambicana viciada em novelas brasileiras. Ficou super triste quando eu a revelei que Lázaro Ramos e Thaís Araújo tinham terminado o romance. Com ela, Mahomed teve mais dois filhos: Yumna e Jamil, de 10 e sete anos, respectivamente. Jamil é uma criança super inteligente. Fala três idiomas: português, inglês e árabe. Mas prefere se comunicar em inglês. O tempo que passei em casa de Mahomed, passei conversando com Jamil. Dormi o restante do tempo. À noite, vi, com toda a sua família, um capítulo de A Favorita pela Globo Internacional que tansmite com deley de um dia a novela. Percebi como Thaís Araújo faz sucesso em África. Na manhã de domingo, saímos cedo de casa, por volta das 6h, e os termômetros marcavam 6 graus. Mahomed pôs um CD no seu automóvel com versos do Alcorão, que ele tem de recitar toda manhã. Enquanto ele repetia sua oração, eu repetia um mantra que aprendi para evocar bons fluídos em novas fases da vida: "Aum Shri Ganeshaya Namah". Traduzindo: "Salve o nome de Ganesha". Ganesha é um Deus védico, conhecido como Senhor dos Obstáculos. No aeroporto, não tive dificuldades em embarcar. Aliás, na África do Sul tudo funciona. Saí do país pontualmente às 8h45. Johannesburg é uma cidade de primeiro mundo, apesar da criminalidade. Lá, está o maior prédio da África com 55 andares. Segui para o portão de embarque. Muitos negros engraçados esperavam o vôo. Não conseguia entender o que uma madame rechonchuda, de seus 60 anos, e com um figurino à la Viúva Porcina dizia, mas fazia todos rirem. Uma negra lindíssima não parou de me paquerar. Mas eu estava elegantíssimo. Queria impressionar na minha chegada ao Congo. Não tive sorte mais uma vez na viagem. Sentou-se ao meu lado um negro todo vestido de branco, parecia mais um pai de santo, e banhado a Kouros, mas que não conseguia mascarar sua fedentina. Piorava a situação. Ele tentou puxar conversa comigo, perguntando de onde eu era e surpreendeu-se com o fato de eu ser do Recife. Cidade de onde ele estava vindo. Tentei falar com ele ora em francês, ora em inglês. Mas ele era logorréico. Tratei de fingir desmaio. Apaguei, de fato, a viagem inteira até Kinshasa, mais ou menos três horas de vôo. Na aterrisagem, todos os passageiros bateram palmas. Não contive as gargalhadas. Ao desembarcar no país, muita confusão. Minha vacina contra a febre amarela só começaria a validar no dia 5 de julho e tivemos que pagar 60 dólares para que eles liberassem meu ingresso no país. A moeda na República do Congo é o franco congolês. Quinhentos francos congoleses equivalem a um dólar. Após passar pela alfândega, onde um congolês de nome Júnior agilizava meu ingresso, pagamos a propina e fomos para a casa, num local chamado Vila, onde estou a morar. Aqui, só habitam os milionários do país. No caminho até a mansão, muito engarrafamento, afinal de contas, tratava-se de um dia de domingo de céu cinzento, como a maioria dos dias congoleses. As pessoas se dirigiam para o Rio Congo, segundo maior rio da África, que divide a República do Congo do Congo. Transportes alternativos precários e entupidos de nativos rumavam para o balneário. Uma hora no trajeto até a república, como chamamos a casa onde moramos. Aqui, um carneiro preparado pelo Eli, diretor do programa de TV do Congo Chance (nome do produto que estamos a implantar) foi servido com a minha chegada. Eli é piauiense, mas mora em Belo Horizonte, desde que o Poupa Ganha, antigo bingo na TV, chegou à cidade, levando-o como diretor de produção. Já trabalhou em outras loterias implantadas na Costa Rica e Angola. Seu savoir-faire na área é dos melhores. Bebemos muitas Skol belgas, de tamanho um pouco maior que a nossa, 700ml, e sabor mais forte. O que me deu uma baita dor de cabeça. A casa tem uma piscina imensa e pude relaxar tomando banho até o sol cair. Recolhemos-nos, em seguida, pois o mosquito transmissor da malária começa a atacar nesse horário. Bom, foi aí que este blog tomou vida. Agora são 16h15 do dia 30 de junho aqui em Kinshasa. No fim do dia, publico mais um post, contando o dia de hoje. Aguardem!

domingo, 29 de junho de 2008

A Chegada

Começo a escrever este blog no meu quarto, na casa onde estou morando em Kinshasa, capital da República do Congo, África, às 21h (17h no Brasil). É um quarto de 4x4m², mas bem aconchegante. Ainda não sei quantos quartos têm na casa, que é de propriedade da primeira-dama do país. Não contei. A casa é imensa. Ao todo somos em 7. Todos com seu aposento individual. Fora o quarto do dono da empresa: a suíte presidencial. Cheguei a ver. Ela é monumental. Quem me conhece sabe, que quando eu digo que é monumental, é porque é! Pois bem, a idéia de escrever este blog surgiu, ontem, rolando na cama, em Johannesburg, cidade no centro da África do Sul, onde estive por um dia para poder embarcar para o Congo. Com problemas de adaptação com o fuso horário e insone que sou, pensei em relatar minha temporada no continente. O que vim fazer aqui? Você deve estar se perguntado. Vim a trabalho. Implantar uma espécie de "telesena" no país. O convite surgiu no início do mês e tive pouco mais de três semanas para me organizar e embarcar para a África. Saí do Recife na sexta-feira, às 12h45, com destino a São Paulo, onde faria uma conexão para a África. O vôo, saindo da capital pernambucana, atrasou e eu teria pouco mais de uma hora para fazer o check in na South African Airways e me dirigir para o embarque. Quem já fez uma viagem internacional sabe que isso é uma loucura. Pois bem, desci de um vôo da TAM, que estava previsto para chegar em Guarulhos às 15h55 e chegou às 16h30, e iria embracar para Johannesburg às 18h. Loucura, loucura, loucura, como diria o marido de Angélica. Na esteira, minha mala demorou horrores para sair. Perdi uns 20 minutos esperando-a. Mas deu tudo certo. O vôo para a cidade sul-africana atrasou. Ufa! Deu tempo de atravessar todo o Aeroporto Internacional de Guarulhos, num dia atípico, cheio de excursões de adolescentes para a Disney; turistas japoneses que encerravam as comemorações do centenário de imigração para o Brasil; além dos tradicionais viajantes que superlotam aquele aeroporto. Eu corri como um louco para dar tempo de embarcar. Consegui! A atendente da South African disse: "sua sorte é que o vôo está atrasado". Mas eu estava predestinado para seguir para a África. Saiba porque amanhã... Hoje, estou muito cansado para continuar a postagem...