Gente, muito trabalho me impediu de atualizar o blog. Agora, digo hoje, estou mais sossegado e posso escrever minhas impressões sobre a República Democrática do Congo (RDC), ex-Zaire. Bom, daqui saíram muitos negros que foram levados para o Brasil durante o período da escravidão. O povo bantu, da qual originam os congoleses, enriqueceu nossa língua com palavras como caçula (o filho mais novo) e quilombo, que ainda hoje é como se denominam habitações de palha encontradas no interior da RDC. Minha ligação com esse país é secular. Aqui, a corrupção não é muito diferente do Brasil (talvez seja herança, não sei?!), mas muito mais pungente. As coisas só funcionam se dermos uma "motivação". Uma autorização para qualquer coisa só é agilizada se pagarmos algo por fora. Caso contrário, eles retardam ao máximo. Se você abre um sorriso, alguém já aparece cobrando um imposto por tamanha alegria. Bom, isso é notório entre os próprios nacionais. Eles mesmos admitem que são assim. Alguns falam em tom de reprovação, mas os flagro cometendo as mesmas infrações apontadas cotidianamente. Por essas questões, tive que tomar uma série de precauções. Freqüentar, por exemplo, lugares tradicionalmente de negros jamais. Já fui inclusive "ameaçado de morte" em um gueto. Nunca mais voltei ao local. Customo freqüentar casas noturnas de libaneses, portugueses, franceses. Principalmente uma de um libanês chamado Mohamed. 90% dos libaneses do sexo masculino aqui chamam-se Mohamed. Brincadeira, mas há uma quantidade absurda de Mohamed aqui. Quando não é Mohamed, é Ali. Já conheci uns sete com esse segundo nome. Lembrei do diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, e do livro de sua autoria "Sobre o Islã". Comecei a pesquisar mais sobre o povo libanês. Eu sou um jornalista nato! Bom, Ali é um nome comum entre mulçumanos, religião do todo-poderoso do jornalismo da Globo. A radicalização religiosa no Líbano fez com que muitos jovens viessem tentar a vida aqui no Congo. 20 anos de Guerra Civil, depois veio o apogeu do Hezbollah, após isso tudo mais guerra em 2006 e economia instável fez com que a diáspora libanesa acontecesse pelo mundo. Muitos rapazes entre 20 e 30 anos vivem por aqui trabalhando em magazines, lanchonetes, indústrias... Todos deixam a família, namoradas, amigos para tentar sonhar com dias melhores. Meu grande amigo aqui, o Mohamed Marouni (na foto, eu e ele num momento etílico no Saloon VIP), terminou um curso superior em Gestão de Negócios no Líbano e veio trabalhar na RDC numa empresa que produz sabão. Longe de casa, Marouni, como ele prefere ser chamado, vive numa residência com outros seis libaneses desde janeiro deste ano. O fundamentalismo mulçumano assusta mais que o preconceito racial congolês. Bom, lá (digo, no Líbano), eles costumam resolver seus problemas com armas de fogo e bombas. Aqui, por mais que a violência seja latente, não soube ainda de crimes raciais. Eles só ameaçam. Mas é melhor tomar muito cuidado. No mais, minha estada em Kinshasa tem sido muito válida para mim (vocês podem perceber na foto) como ser humano e como profissional. Mas me lembro sempre do período que trabalhava com televisão no Recife e cobria prisões de "mulas" que tentavam embarcar para a Europa com cocaína no estômago. Quase sempre eram congoleses. Eita povinho para gostar de uma encrenca.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
sexta-feira, 18 de julho de 2008
"Trip the station, change the channel"
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Choque Estético
Paulinha Lourenço, seu desejo é uma ordem! Depois de ler seu comentário, resolvi escrever. Thais não se sinta diminuída. Sua observação também foi relevante e responsável por mais esta atualização. Confesso que, nos últimos dias, até tenho criado uma nova postagem, mas a inspiração se esvai em segundos e acabo por não publicá-la. Cansaço mental em decorrência do trabalho extenuante. Novidades são muitas. Impossível não tê-las. A República Democrática do Congo é um país de excentricidades. Homens e mulheres fazem xixi na rua na maior. Vi uma senhora levantar o seu boubou - pronuncia-se bubu -, o traje típico dos africanos e africanas, e fazer suas necessidades fisiológicas por trás de uma árvore em plena Boulevard Du 30 Juin. Na mesma avenida - a mais movimentada de Kinshasa - vi um homem abaixar as calças e ensacar a camisa na cueca, subir as vestes e seguir caminho como se nada tivesse acontecido. Mas vocês pensam que os transeuntes se importavam com o que viam? Que nada! Tudo parecia bastante natural. Très bizarre! Vocês lembram da Fifi? Da sua cabeleira que parece mais uma árvore de Natal? Pois ela não é a única a exibí-la. As negras daqui costumam alisar e pintar os cabelos de vermelho e fazer penteados dos mais extravagantes. Os cabeleireiros, em sua maioria, atuam no meio da rua. E serviço de manicure e pedicure quem faz são os homens. Já falei do cosmético que é sensação entre as mulheres de todas as idades: o ClairPlus. Trata-se de um embraquecedor que deixa a pele mais vermelha do que branca. É que o produto deve reagir quando exposto ao sol, deixando a cútis inchada. Elas parecem tomates. Tudo vale a pena na tentativa de se parecer com as ocidentais. O produto tem uma versão masculina também. Como comentei no tópico anterior, a descaracterização cultural do povo no continente é braba. Mas quanto à preservação do dialeto deles, já não posso dizer o mesmo. Tivemos que reavaliar a publicidade apenas em francês, porque boa parte dos congoleses só fala lingala. Hoje, atendi uma cantora, no processo de seleção para escolher a voz do jingle do Congo Chance, e a artista falava mais inglês que francês. Fora que o visual dela era inspirado nos mangás japoneses. Perguntava-me de que planeta ela era. Outra coisa interessante é que os homens andam de mãos dadas nas ruas (como vocês podem ver na foto). E os libaneses do sexo masculino se cumprimentam dando beijos nas faces uns dos outros - três, para casar. Já os africanos batem as testas umas nas outras a mesma quantidade de vezes. Bom, de mãos dadas estou, praticamente, com um dos apresentadores do produto. Não é o que vocês estão pensando! Estamos visitando algumas TVs de Kinshasa. Já citei que elas somam mais de 20. Pois bem, estive em 5 hoje. Amanhã, eu e monsieur Alberto vamos a mais 5. Até o final da semana, somarei 15 visitas. Aliás, monsieur Alberto é um vedete da televisão local. Não tem lugar onde ele chegue que alguém não peça um autógrafo. As TVs daqui são inúmeras, mas feitas quase que amadorísticamente. Na minha visita à Digital Congo, de propriedade do presidente Joseph Kabila, presenciei o animador (como é chamado aquele apresentador estilo VJ) comentar o aniversário de 50 anos da primeira conquista de um Mundial pelo Brasil. Futebol aqui é passatempo de todo garçon. Num campo improvisado ao lado da RTNC, a TV estatal daqui, vi um time todo padronizado com a camisa da seleção brasileira. Monsieur Alberto comentou comigo sobre a transferência de Ronaldinho Gaúcho do Barcelona para o Milan, mas eu desconhecia o assunto e tratei de cortá-lo, falando de trabalho. Assim que cheguei na AGL, procurei saber sobre o passe. Aliás, aqui, como no Brasil, todo homem é monotemático: só fala de futebol. E em lingala, o que é pior. Decidi estudar o dialeto. Encontrei um site na internet com lições básicas. Querem aprender? http://pagesperso-orange.fr/pascal.grouselle/voca.htmsábado, 12 de julho de 2008
Má influência
Acordei, nesse sábado, com a informação de que monsieur Mário fora assaltado em Luanda. Os angolanos estão cada vez mais abrasileirados. Com a forte influência da TV brasileira no país, o povo de Angola tem se descaracterizado brutalmente. Eles imitam tudo o que fazemos. Inclusive, o lado podre. Seqüestro-relâmpago é coisa importada, de acordo com fontes que viveram lá.
O monsieur Mário voltava de uma reunião, acompanhado do dono da AGL-Congo - monsieur Alberto Gueiros -, quando seu veículo fora interceptado por outro, que atravessara-se no caminho. Três voleurs levaram tudo. O automóvel, dinheiro, notebooks, relógios e os passaportes dos messieurs Mário e Alberto. Uma ação vista com freqüência nos folhetins brasileiros. Isso complica todo o lançamento do Congo Chance, pois eles só poderão retornar à República Democrática do Congo, quando receberem novos passaportes. E isso leva tempo, já que eles não estão no seu país de origem e, ainda mais, sem nenhum documento. É uma antiga discussão que travei durante todo o curso de jornalismo. A veiculação na imprensa da barbárie do dia-a-dia brasileiro só fomenta o crime. Os efeitos disso são catastróficos. Não que a mídia vá ocultar fatos, mas o sensacionalismo dos programas que lucram com a desgraça alheia, sob o discurso da cidadania, só promove mais caos social. É aquela máxima da "violência resolvida com violência só gera mais violência". E informação dramatizada (vide Cardinot). Ainda não vi por aqui programas policiais no nível dos brasileiros. Vive-se sob um regime semi-ditatorial e o Estado censura, quando acha que deve fazer. Não sou a favor da censura, mas de um maior rigor no que concerne à exibição de cenas de violência, de sexo, e por aí vai. Se os senhores e senhoras quiserem desenvolver seu pensamento, leiam. A dependência da TV na nossa sociedade é muito grande. Um bom livro ou um blog bem escrito (como esse aqui – modesto o garoto, hein?!) incentiva o pensamento e liberta-o simultaneamente. A tal liberdade de expressão, que tanto pregam meus colegas de profissão aí no Brasil, deveria ser revista com bastante atenção. Complicado isso de poder dizer o que quero. As pessoas nem sempre estão preparadas para ouvir qualquer coisa. O tal do discernimento. O desserviço que esses programas policiais, novelas, têm provocado é maléfico não só para o nosso país, mas também para aqueles de identidades frágeis, onde nossa TV (considerada "uma das melhores do mundo") tem chegado.
O monsieur Mário voltava de uma reunião, acompanhado do dono da AGL-Congo - monsieur Alberto Gueiros -, quando seu veículo fora interceptado por outro, que atravessara-se no caminho. Três voleurs levaram tudo. O automóvel, dinheiro, notebooks, relógios e os passaportes dos messieurs Mário e Alberto. Uma ação vista com freqüência nos folhetins brasileiros. Isso complica todo o lançamento do Congo Chance, pois eles só poderão retornar à República Democrática do Congo, quando receberem novos passaportes. E isso leva tempo, já que eles não estão no seu país de origem e, ainda mais, sem nenhum documento. É uma antiga discussão que travei durante todo o curso de jornalismo. A veiculação na imprensa da barbárie do dia-a-dia brasileiro só fomenta o crime. Os efeitos disso são catastróficos. Não que a mídia vá ocultar fatos, mas o sensacionalismo dos programas que lucram com a desgraça alheia, sob o discurso da cidadania, só promove mais caos social. É aquela máxima da "violência resolvida com violência só gera mais violência". E informação dramatizada (vide Cardinot). Ainda não vi por aqui programas policiais no nível dos brasileiros. Vive-se sob um regime semi-ditatorial e o Estado censura, quando acha que deve fazer. Não sou a favor da censura, mas de um maior rigor no que concerne à exibição de cenas de violência, de sexo, e por aí vai. Se os senhores e senhoras quiserem desenvolver seu pensamento, leiam. A dependência da TV na nossa sociedade é muito grande. Um bom livro ou um blog bem escrito (como esse aqui – modesto o garoto, hein?!) incentiva o pensamento e liberta-o simultaneamente. A tal liberdade de expressão, que tanto pregam meus colegas de profissão aí no Brasil, deveria ser revista com bastante atenção. Complicado isso de poder dizer o que quero. As pessoas nem sempre estão preparadas para ouvir qualquer coisa. O tal do discernimento. O desserviço que esses programas policiais, novelas, têm provocado é maléfico não só para o nosso país, mas também para aqueles de identidades frágeis, onde nossa TV (considerada "uma das melhores do mundo") tem chegado. sexta-feira, 11 de julho de 2008
Le paradis de Kinshasa
Esse lugar aí da foto é o meu espaço preferido em Kinshasa. Hoje, eu e Adriana almoçamos e, depois, fizemos um happy hour lá. As pessoas mais bonitas da cidade freqüentam o Hunga Busta. No almoço, comi uma massa deliciosa (espagueti ao molho de tomate e camarão) e, agora há pouco, tomamos chopes e saboreamos o shamossa, que é uma espécie de rolinho primavera libanês, recheado com queijo ou carne. Não vou publicar tudo o que conversamos, pois esse blog é lido por menores de idade, mas demos boas risadas. Já comentei que aqui é complicado tirar fotos em público, por isso a do Hunga Busta foi tirada no carro em movimento. Hoje, dirigi imagens do VT que explica como se processará o jogo. Parou a rua em frente à empresa. As funcionárias do salão do Mansour não fizeram mais nada a não ser acompanhar a gravação. Na hora do almoço, fui ao coiffeure e paguei por uma massagem no quengo. Très rêlachent! O Mansour está querendo saber demais sobre mim. Fiquei me perguntando: "será que, no mundo todo, cabeleireiro gay é pleonasmo?" Tive um dia formidável. Mil planos. Safári no Krugger Park, na África do Sul; visita às pirâmides do Egito; veraneio na Costa do Marfim... Para início de conversa, balada em Kinhasa. Amanhã, minha programação inclui passagem por três locais. A noite, aqui, começa ao cair da tarde. Sério! As boates enchem às 19h. Vou conhecer, primeiro, o Mambo - a casa mais popular, no sentido pejorativo da palavra; depois o Saloon - a maior de Kinshasa; e, por fim, o Libanais - point dos estrangeiros que vivem aqui. "Eu gosto é do estrago!" Vai ter comentário da minha mãe quanto ao exagero nesta postagem, mas fique calma, vou ser conduzido por um taxista angolano, que fala português, francês e lingala; e estarei acompanhado do editor de imagens da empresa, cidadão congolês. No link abaixo, vocês têm a visão aérea do Hunga Busta: http://wikimapia.org/3194270/Hunga_Busta_Fast_Food quinta-feira, 10 de julho de 2008
Primeira peça publicitária
Não foi necessário produzir nenhuma imagem para a primeira peça publicitária do Congo Chance. O teaser, como chamamos a expectativa do produto, entra no ar, hoje, em 15 TVs de Kinshasa. Aqui, existem mais de 20 TVs abertas. Mas o conteúdo é muito ruim. Os cenários são minúsculos, claustrofóbicos. Um break comercial tem cerca de meia hora, com um comercial que às vezes dura o intervalo todo. Nós procuramos elementos que identificam Kinshasa e o seu povo na campanha publicitária. Um dos meios de transporte mais utilizados pelos kinois é o trem. Daí, o fato de iniciarmos o VT com o veículo apitando. A última frase "Kosepela na Kosepela Mikolo Nionso" é em lingala e quer dizer: "Parce que vous méritez être heureux tous les jours!". Em português: "Porque você merece ser feliz todos os dias!"
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Fruto proibido

Comer maçã, em Kinshasa, é um verdadeiro pecado! Sentindo falta de fruta no meu cardápio diário, resolvi ir ao supermarché comprar umas maçãs para o petit déjeneur. Minha dieta está resumida a pão com ovo e café preto, de manhã e à noite; e feijão preto com farinha, macarrão e carne (um dia bife e outro frango), no déjeuner. Saudades das comidas de Lili! Desse jeito, vou acabar desnutrido. Pois bem, ao converter o valor de quatro maçãs, do franco congolês para o dólar, quase caí para trás: seis dólares. O meu problema é que sempre converto tudo o que compro também para o real e percebo o quanto viver (e sobreviver) no Brasil é possível. Seis dólares são quase 12 reais. Era tarde demais para desistir. Já estava no caixa. Meu bolso teve um surto epilético. Sinto que vou me desnutrir! Quase todas as frutas vendidas nos supermarchés de Kinshasa são importadas da Bélgica, África do Sul... As nacionais são temidas, devido à falta de higiene na produção e risco de contaminação dos alimentos. Cuidado é necessário ter em quase tudo na África. Eu não quero entrar em paranóia, mas os brasileiros por aqui têm me assustado à bessa. Com o costume de ir fazer as unhas no salão de beleza, cotidianamente, no Brasil, uma das primeiras coisas que fiz, ao chegar à República Democrática do Congo, foi agendar uma visita ao Mansour, le coiffeur libanais. Fui logo advertido: "Só faça isso, se você vir a esterilização dos materiais", disse Mateus, o filho do monsieur Mário, que trabalha no comercial da empresa. Essa foi só mais uma das advertências feitas a mim. Medo! Ah, deixa eu falar de coisas boas. Hoje, fizemos as imagens finais do clipe do Congo Chance. Está ficando tudo muito legal. Infelizmente, esqueci de salvar o teaser do produto no meu pen drive. Iria postar hoje. Mas, amanhã, prometo que publicarei nessa mesma postagem. Estou me programando para ir ao Mambo no sábado. Confirmei com um taxista para me levar e me trazer de volta. Lá, pode-se dançar até samba. Vou matar a saudade da Casa de Bamba das minhas amigas Pacheco (Tici e Xuruca). Amanhã, ao ligarem o computador, entrem no meu blog para ver como está ficando o trabalho aqui. Au revoir!
terça-feira, 8 de julho de 2008
Será o princípio do fim?
Gente, meu blog é sensação! Já tem um punhado de leitores assíduos. Chiquinho, Larissa, Dedea, Primo, Raíssa, Kiran, Thaís (prima e a amiga), Déia, fora minha família querida que tem acompanhado diariamente as aventuras desse brasileiro que vos escreve... Fiquei super feliz com isso, porque eu tenho tentado passar com muito bom humor minha odisséia na África. Essa postagem traz a foto da madame Solange, minha outra assistente. Aos poucos, vou apresentando minha equipe. A foto, um pouco escura - mas que dá uma idéia da sala em que trabalho, deve ter sido tirada pela Safir. É do ponto de vista da mesa dela. Vou providenciar uma máquina fotográfica decente para poder postar fotos minhas e matar a saudade dos meus entes queridos. Tenho estado muito ocupado e o trabalho esgotado minha criatividade. Decidi: só vou postar agora quando eu tiver uma boa notícia para contar. O que vocês acham? Quero muitos comentários e, de repente, até campanha: "Não pare, George!"
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Desbravando Kinshasa
Acabou de acabar A Favorita, aqui, e vim publicar mais esta postagem. Ontem, passei o dia fora e não tive coragem de escrever nada quando retornei à república. Très fatigué! A idéia, ontem, era irmos a um lago, que fica a uma hora do centro de Kinshasa, mas resolvemos conhecer a periferia da capital da República Democrática do Congo. O Maluku fica às margens do rio Congo. O rio divide Kinshasa de Brazzaville, capital do Congo. O rio Congo é majestoso! Nesse pedaço da cidade, muitas embarcações fazem o trajeto entre os países, levando produtos de um lado para o outro. Visitamos uma feira que comercializa de tudo (principalmente javali - uma carne muito apreciada por aqui) e encontramos muitos artigos com o nome do Brasil estampados. Aliás, o Brasil pode ser visto em muitas coisas, desde aquela sandália havaiana com a bandeirinha brasileira até a própria bandeira, vendida nos marchés da cidade. Ontem, ainda, andamos de barco pelo rio Selé, afluente do rio Congo, e passamos algum tempo no Gandayla, um espaço para pique-nique. Haviam muitos indianos e franceses no local. Descobri que o nosso segurança Tigre foi braço direito de um ex-ditador do país, um tirano de nome Mobutu, responsável por crimes bárbaros. Medo! Tiramos muitas fotos, mas as perdemos, não me pergunte como. A máquina do Eurico, que trabalha na AGL-Congo e atua no comercial da empresa, apagou-as misteriosamente. Fiquei tão decepcionado, que perdi a vontade de postar hoje. Mas superei o trauma e resolvi contar como foi meu dia. Hoje, fizemos as primeiras imagens da campanha publicitária do Congo Chance. Definitivamente, os congoleses não sabem o que é pontualidade. Acordei cedo e me dirigi para a empresa, às 7h15 da manhã (combinei com todos às 7h30), mas só conseguimos sair às 9h30. Resolvi fazer uma pequena reunião, antes de partirmos, para cobrar mais pontualidade a todos. Foi necessário solicitar guarida à polícia para podermos trabalhar em paz. Com um custo, lógico. Paguei 6.000 francos congoleses (o que equivale a 12 dólares) a um policial para termos segurança durante a gravação das imagens. Hoje, fez muito calor aqui. Estava um sol escaldante. O que fez o trabalho ficar mais cansativo. O labor é mais intenso, porque além de pensar normalmente nas imagens a serem feitas, eu tenho que pensar em francês, o que exige de mim um raciocínio redobrado. No Grand Marché, o maior mercado público de Kinshasa, fomos acuados assim que chegamos ao local, no momento em que minha assistente Safir manipulava uma handcam do cinegrafista Guellord. É proibido fazer qualquer tipo de imagem na cidade sem autorização do Estado. E paga-se por isso. Nós tínhamos a autorização, só que, no momento, aguardávamos minha outra assistente, madame Solange, que tinha ido ao escritório central do local para apresentar a autorização e com isso dar início às filmagens. Pois bem, foi um pega-pra-capá. O funcionário do mercado queria tomar a câmera. A polícia chegou e se instalou une querelle. Foi então que o chofer Carlos, um angolano bastante metido a patrón, argumentou sobre a nossa situação, em lingala, o dialeto falado pelo povo do país, e ele nos liberou. Ufa! Já era meio-dia e muita coisa a ser feita. Desisti do Grand Marché e fomos à Place Victoire. Lá, tive que pagar mais l'argant para filmarmos. Mas fizemos imagens legais. Vou postar o making off dessa produção amanhã. Por fim, fomos ao Marché de La Liberté. Já eram 4h da tarde e minha cabeça tinia. Para vocês terem uma idéia, o Marché de la Liberté fica a uma hora do centro de Kinshasa, onde fica o escritório da empresa, e toda essa trajetória foi feita enfrentando muito engarrafamento. Foi um dia daqueles. Fiquei sem máquina fotográfica para registrar a gravação, pois a bateria do aparreil acabou. Para finalizar, tive aguentar o cheiro insuportável de cola que impestava a minha sala, devido à colagem de espumas que estavam fazendo na ilha de edição numa cabine que servirá para gravarmos áudios. A minha cabeça deu um nó. Estou sendo muito burocrático, hoje, devido a todos esses infortúnios. Prometo, amanhã, uma postagem mais empolgante. Para não deixar de postar uma foto, conheçam minha assistente Safir. Parece uma brasileira, do Recife, chamada Patrícia.
sábado, 5 de julho de 2008
Top, top, top!

Tive que fazer mais um casting para o clipe de lançamento do Congo Chance, pois o da quinta foi insuficiente. Precisei mostrar várias referências do que eu queria para minhas assistentes entenderem o espírito da coisa. Acredito que, agora, tenho o que eu procuro. Após a seleção, que durou a manhã inteira, defini com minhas assistentes a programação da próxima semana. Tivemos uma reunião para planejar o lançamento do produto e acertar arestas no que diz respeito à nossa permanência em África. Fomos ao supermarché, em seguida, por volta das 14h, comprar alguns quitutes para levarmos a um pique-nique que iremos fazer amanhã. Vamos a um lago (esqueci o nome, amanhã eu o posto) um pouco distante da cidade. Estou torcendo para que faça sol. Quero pegar uma corzinha, pois estou azul. Mais tarde, vou dar umas braçadas na piscina. Não quero cair no sedentarismo. Logo eu, um atleta. A foto desta postagem é de Victor e Léo. Olhem, eu nunca pensei que fosse me render a uma dupla sertaneja, mas a música "Tem que ser você", tema da personagem Maria do Céu, interpretada por Débora Secco, em A Favorita, é a campeã de audiência do meu I-Pod. "E, hoje, eu te amo, não vou negar. Que outra pessoa, não servirá..." A seguir, o link de um vídeo deles no youtube. Nossa, entra ano, sai ano, e as duplas sertanejas continuam se vestindo como Leandro e Leonardo no início da carreira. Zezé di Camargo & Luciano são os únicos a não se produzirem mais tão brega. Muito pelo contrário, é Armani que reina no guarda-roupa deles. Victor e Léo, se precisarem de um consultor de moda, estou aqui. Pagando bem, vou até para a África.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
O Líbano é aqui!
Ontem, estava tão cansado, que, após A Favorita, fui dormir. Tenho assistido essa novela todos os dias. Aqui, passa, às 20h local (16h, no Brasil), pela Globo Internacional. Gabriela, só lembro de ti. Donatella pônei! Não postei mais nada por conta do cansaço! Dormi muito bem. Sonhei com meu irmão querido. Saudades! Hoje, acordei em cima da hora de sair. Já estavam todos no carro. Mas fui tão ágil, que acabei chegando primeiro na empresa. O carro que eu vim, sozinho, pegou um atalho e consegui a proeza. Como saí às pressas, não tomei café-da-manhã, o petit dejeuner. Fui com minha assistente, Safir, comer algo nas proximidades. Ela fez uma campanha publicitária e pode ser vista em banners gigantes espalhados por toda a cidade. No caminho até o restaurante, muitos pedintes. Um grupo de crianças só me largou, quando dei 500 francos, ou um dólar, para cada uma. Eram 5. "Très gentil!" Fui a um restaurante libanês, para variar. Aliás, aqui o comércio é dominado pelos libaneses. Comi um hambúrguer avec fromage e uma coca-cola. Confesso, estou me alimentando muito mal. Culpa dos libaneses. No almoço, conheci o Hunga Busta, não preciso nem dizer a nacionalidade dos proprietários. A melhor pizza de Kinshasa. Comi uma petit quatre fromage avec jus d'orange. 14 dólares. Très cher! Mas hoje é sexta-feira!!!!!! O Hunga Busta é ponto de encontro dos descolados de Kinshasa. Às 18h, eles se reúnem lá para fumar narguilê. Aluga-se um por 5 dólares. O interior da lanchonete tem monitores LCD de 42 polegadas que transmitem a programação das TVs francesas. E as mesas são no estilo americano. Fuma-se em qualquer espaço aqui. Não se tem respeito por não-fumantes. Na foto acima, a rua mais movimentada de Kinshasa, Boulevard du 30 Juin, onde fica o Hunga Busta, registrada numa hora nem tão movimentada. Hoje, conheci o salão do Mansour, que fica em frente da empresa. Mansour é... tchan, tchan, tchan... libanês. Deixou meu cabelo como vocês podem ver na foto tirada pela minha assistente madame Solange. Ela tem 27 anos, mas - aqui - teve um filho, já é chamada madame. Gastei 5 dólares para lavar, fazer uma massagem e estilizá-lo. Hoje é vendredi!!!!!!! Quero tomar um chope no Hunga Busta. Quem sabe fumar narguilê, me enturmar com os libaneses...
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Olha a cabeleira da Fifi!
quarta-feira, 2 de julho de 2008
A Terra dos Diamantes

Gente, hoje, descobri que estou vivendo num país maravilhoso. Sério! A República "Democrática" do Congo é uma terra disputada pela riqueza mineral que possui. Se vocês tiverem a oportunidade de ver, assistam o filme "Diamante de Sangue", com Leonardo di Caprio, que se passa nessa região. Aqui, existem inúmeras jazidas de diamantes, principalmente, na divisa com Ruanda. Exatamente por isso, o Congo é alvo de uma disputa internacional. Inclusive, o presidente atual, Joseph Kabila, é um fantoche dos americanos. Ele é apoiado pelo presidente Bush, mas na verdade, nem congolês ele é. Hoje, fiquei sabendo de sua história. Monsieur Mário, responsável pelo administrativo da AGL-Congo, uma pessoa de uma inteligência admirável, revelou-me que nas eleições presidenciais, em 2006, um guerrilheiro chamado Jean-Pierre Bemba, conhecido por exterminar famílias inteiras no interior do país, disputava o cargo e havia perdido o pleito em todo o território nacional, menos na capital Kinshasa. Não chegava, até a metrópole, as notícias escabrosas sobre sua truculência. Pois bem, o candidato adversário, o Kabila, reivindicou o cargo, mas o Bemba não entregou os pontos. Instigou um levante do exército, no início do ano passado, que culminou num ataque a civis. Morreram (isso é uma informação extra-oficial) cerca de 1.000 congoleses. A sede da ONU, em Kinshasa, tem as paredes todas metralhadas. Pouco se ouviu falar, na época, através da imprensa internacional, algo sobre o assunto. Com o apoio do exército angolano e dos americanos, Joseph Kabila assumiu o poder. Sua postura é bem liberal. É possível ver nas ruas propagandas de promoção à emancipação feminina. Mas suas intenções são consideradas pouco nacionalistas. Seu pai foi um herói nacional e teria tido um caso com uma nigeriana que daria a luz ao bastardo em seu país de origem. Por isso, Kabila não tem o apoio dos habitantes de Kinshasa, e assim a cidade passou a ser vista como um barril de pólvora. Bemba fugiu do Congo, por ser acusado de traição, mas foi preso na Bélgica, mês passado, por existir uma condenação, na corte internacional, por crime de genocídio. Postei um mapa da África, para que vocês possam se situar onde estou a morar. Visitei, hoje, o centro de Kinshasa e fiquei apoplético com a cidade. É muito desenvolvida, se não fosse a sujeira. É uma São Paulo (guardadas as devidas proporções) depois de uma chuva de papel picado e de areia. Os libaneses são donos de todos as grandes lojas da cidade. Hoje, fui a um supermarché libânes que fiquei boquiaberto. Eles realmente sabem ganhar dinheiro. Não vou revelar o segredo. Copiarei a idéia. Comprei um Jhonny Walker Red por 13 dólares e um saco de batatas fritas semi-prontas por um dólar lá. É o lugar! Estou a beber com meus chefes agora, saboreando as french fries. Amanhã, terei um dia bastante puxado. Seleção dos apresentadores, das figurantes para o clipe promocional e das assistentes de palco do Congo Chance; tradução dos roteiros para o francês, pré-locação... Como prometi, vejam Nenette. A negra mais bela do Congo. Já é assistente de palco!
terça-feira, 1 de julho de 2008
Les chaussures des Fifi
Meu primeiro dia de trabalho oficialmente foi hoje. Chegamos na empresa por volta das 8h30 da manhã. Passamos a manhã reunidos, definindo toda a campanha de lançamento do produto. Conheci minhas assistentes: Solange e Safir. Muito desenroladas. O povo já está sabendo da existência da empresa na República do Congo e faz fila para tentar uma vaga. Atendi uma mademoiselle que estava tão nervosa, mas tão nervosa, que tremia. Gisele o nome dela. Bonita, bem vestida, de fala mansa. Dificultou a minha compreensão. Tive que pedir ajuda ao Patou, um angolano que trabalha no comercial da empresa, para entender o que ela falava. Essa ao lado, na foto, é Fifi. Ela é serviços gerais da empresa, mas é chiquérrima. Perceba os chaussures dela. Dolce & Gabanna! Não tive como não registrar. Fora o aplique. Roxo! Ela vai aparecer mais no meu blog! Ensinei-a como gosto de café. O café batido que aprendi na África do Sul. Vou ensinar para vocês como se faz: ponha o café solúvel com açúcar e um pouco de água quente só para fazer uma pasta. Bata, com uma colher, até ficar uniforme a mistura. Depois, jogue a água fervente. Faz uma écume, como chamamos aqui, ou em português: espuma. Delícia! Mas o problema é que o café solúvel do Brasil é uma negação. Procurem fazer com o importado. Amanhã, vou apresentá-los Nenette, a recepcionista. A mais bela negra que já vi na vida! Por falar em beleza, um coméstico que é sensação entre as mulheres de Kinshasa é um creme para embranquecê-las. Porém elas passam em demasia e vão para o sol e o produto deixa a pele bem vermelha, parecendo que elas passaram coloral no rosto. Passamos o dia sem internet hoje. Senti-me isolado do mundo. Bom, ainda traduzi alguns roteiros das peças publicitárias iniciais do português para o francês, o que me fez perder horas na frente do computador. Minha gramática française está enferrujada. Meu amigo candango e poliglota Ravi me salvou, no fim do dia, quando a conexão restabeleceu. Hoje, vi que vou ter dificuldades em me adaptar, não é nem com o fuso, mas, sim, com o cheiro dos congoleses. Já fizeram comentários sobre isto no blog, mas cito isso a título de informação, pois é algo que não tem como não registrar. Mudando de assunto e prometo não falar mais sobre isso, aprendi algumas palavras em lingala, o dialeto falado pelo povo do Congo. Hoje, estava na frente da empresa, olhando para os transeuntes e o segurança, o Tigre, puxou-me, gritando: "Qeba, Qeba, Papa!" Fiquei assustado com a reação abrupta. "Qeba" quer dizer atenção e "papa", patrão. Era perigoso eu estar na rua. Muitos assaltos. Afinal de contas, eu sou um "monbele". Em lingala, quer dizer branco. Tigre veio no voiture até a república nos escoltando. Enfrentamos um engarrafamento incomensurável. Comentei em alguma das postagens que vi muitos carros importados, mas na verdade o Mercedes aqui é um carro popular. Sai por 5 mil dólares um modelo 2006. O difícil é tirar a carta, mas já descobri que por 70 doláres consigo uma licença para dirigir aqui. A corrupção é grande nos países da África. Agora, estamos a tomar um vinho com fromage. Um Ribaboa, da região do Dão, em Portugal. O vinho é bem encorpado, leve. Recomendo. Preciso de um sonífero para dormir hoje. Ontem, passei a noite como tapioca, de um lado para o outro. Ai, que vontade de comer tapioca... À demain, mons amies!
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Primeiro dia de trabalho
Acordei com uma baita dor de cabeça, por conta das Skol belgas tomadas na minha recepção ontem. Eram quase 8h da manhã. Levantei-me e fui tomar banho, ainda tonto devido a não adaptação ao fuso horário. Em seguida, fomos à empresa. A cidade estava vazia, pois hoje comemora-se a independência da República do Congo. A África Gaming LTDA localiza-se no centro de Kinshasa. Fomos recebidos pelos seguranças: Tigre, Papapier e Chibambo, este último fala um pouco de português. Conheci as dependências da empresa. O sorteio será feito lá mesmo numa ampla sala aos sábados. Mas o cenário ainda não foi definido. Passei a manhã discutindo com a diretora de marketing, Adriana Gomes, seu formato. Fiz algumas sugestões e já viajei na campanha publicitária. Estou bastante empolgado. Fomos almoçar num restaurante libanês, o City Market, que tem, anexo, um supermercado. Comi um philadelfia, que é um pão baguete com carne ensopada. Finalmente, vi gente de outra cor. Parece um comentário racista, mas é que não tinha visto gente branca ainda aqui. Fiquei encantado com o lugar. Voltarei mais vezes lá. Fiz algumas comprinhas, pois tinha perdido meu desodorante, creme de barbear, shampoo e condicionador no embarque em Guarulhos, pois estavam na minha bagagem de mão e não podem ser levados dentro da aeronave em viagens internacionais. Isso depois do 11 de setembro. Maldito Osama! Paguei um precinho um pouco salgado para repor: cerca de 50 dólares. Tenho que economizar, apesar de não ter despesas aqui com alimentação nem transporte nem hospedagem. Voltamos na caminhonete Mitsubshi cabine dupla da empresa, um dos muitos carros importados que podem ser vistos circulando nas ruas. Depois a gente fala de má distribuição de renda no Brasil. Aqui, a coisa é muito discrepante mesmo. Na minha sala (olha, que chique: "Minha sala!"), fiz a segunda postagem do blog, após conversar com meu chefe sobre as peças publicitárias de lançamento do produto. Em seguida, voltamos para a república. No caminho, deparei-me com crianças pedintes nas ruas e isso me emocionou. Quase chorei vendo um garotinho sozinho numa festa de rua em homenagem ao dia da independência. Bom, chegamos em casa e vim para o meu quarto. Arrumei minhas roupas no guarda-roupa e, depois, segui para a cozinha. Jantei e lavei os pratos do fim de semana. Faltou água no fim do processo. Aliás, aqui são poucos os que têm água encanada e luz elétrica. A casa tem duas caixas e um gerador. Acho que sequei uma delas lavando a louça, mas também era muita coisa. Deixei alguns copos ensaboados. A madame Rosa, a doméstica da casa, finaliza isso amanhã. Detalhe a ser comentado: no fim de semana os funcionários folgam e somos nós que temos que cozinhar e limpar tudo. Tarefas divididas. Como já disse na primeira postagem, somos em 7. Seis homens e uma mulher. Adriana Gomes reina entre os marmanjos. Mas é casadíssima. Seu esposo vive em Angola. Vem vê-la aos weekends. Em francês, fim de semana se escreve da mesma forma que em inglês. Tentei ver A Favorita, mas faltou energia e o gerador não ativou a TV de imediato. Não tive paciência de esperar o sinal chegar e vim para o quarto postar mais esse relato do meu dia. Vou dormir. Amanhã, a labuta me espera. Finalmente, vou conhecer meus funcionários. Olha, que chique!
Predestinação?
No início de maio, tive um sonho que morava em África. Pouco tempo depois, um amigo me disse que foi chamado para trabalhar num produto como um bingo na TV, na República do Congo, mas recusou por estar convalescendo de um infarto. Indicou-me. Logo em seguida, fui chamado pelo dono da empresa para uma entrevista. Ele gostou muito de mim e me contratou no ato. Em três semanas, organizei toda a minha vida: tirei visto, vacinei-me contra as doenças endêmicas da África e segui viagem. Na vinda, assisti o sol nascer em pleno Oceano Atlântico. Foram oito horas de viagem até Johannesburg, minha primeira parada na África. Viajei ao lado de um moçambicano que tinha um cheiro de azedo insuportável. Seria meu primeiro contato com o odor que exalam os africanos. Antes da decolagem, os comissários de bordo da South African espalharam pelo ar um aerosol, tipo Bom Ar, acredito que para tirar a enhaca que conserva este povo. Bom, a viagem teria sido tranquila se não fosse pelo mal estar que o azedume me provocou. Tive que ir diversas vezes ao banheiro vomitar. Como o vôo estava cheio, não havia como trocar de assento. O moçambicano, de nome Luís Ferreira, só não ficou negativamente na minha memória, porque ele era super educado e gentil. Eu estava na janela e ele deu passagem para que eu fosse ao banheiro, diversas vezes, sem se mostrar irritado. Chegou a me ajudar na hora de entender o que dizia um comissário de bordo, que se dirigia a mim com seu inglês misturado com o africans. Africans é um dialeto falado na África do Sul, principalmente, entre fazendeiros de descendência holandesa, do interior do país. É uma mistura de holandês, com inglês e com o dialeto zulu. Bom, Luís foi super atencioso. Incusive me ajudou no desembarque em Johannesburg. Uma city cor de tijolo. Tudo é marrom e a vegetação das savanas, que rodeia o local, ajuda a reforçar esta cromia. Cheguei às 8h22 da manhã (3h da madruga, no Brasil), com a temperatura de 11 graus Celsius. O aeroporto é imenso. A cidade se prepara para receber os jogos do Mundial de 2010 e está reformando tudo. Atravessei várias esteiras até chegar à imigração. Não tive problemas no ingresso no país. A atendente apenas me fez uma pergunta: "Which does the reason of the visit?". Respondi, no meu inglês prosaico: "To work". E entrei sem maiores problemas. No saguão do aeroporto era esperado por Mahomed Adamo, que portava uma plaquinha com meu nome escrito. Mahomed é um moçambicano, que vive em Johannesburg há 15 anos, fugido da pobreza do seu país. Seu trabalho é receber estrangeiros e conduzí-los à sua hospedaria. Ele me levou até sua casa, no bairro de Kensignston, no seu Toyota Cressida de ano 2000, pois sua guesthouse estava lotada. No caminho, pude ver a primeira capa de um jornal local que estampava a manchete: "Rule of Violence". Perguntei do que se tratava e Mahomed me respondeu que muitos sul-africanos estavam atacando estrangeiros e queimando-os vivos. A xenofobia se deve à carência de postos de trabalhos no país e que muitos ex-patriados estavam tendo mais oportunidades, pois se submetiam a péssimas condições de trabalho e salários mais baixos. A perseguição é grande, principalmente, aos estrangeiros de Moçambique, país que fica acima da África do Sul e um dos maiores exportadores de mão-de-obra barata para este país. Perguntei a Mahomed se ele não temia essa onda de xenofobia e ele me respondeu que sim, com sua testa bastante franzida. Rezei baixinho para o Deus dele, Alá, protegê-lo. Mahomed é muçulmano, assim como toda a sua família. Ele tem quatro filhos: Jade, de 21 anos, e Yasser, 19, gerados no seu primeiro casamento. Sua esposa morreu de câncer há 12 anos. Ele casou-se novamente com Mila há 11. Ela é uma moçambicana viciada em novelas brasileiras. Ficou super triste quando eu a revelei que Lázaro Ramos e Thaís Araújo tinham terminado o romance. Com ela, Mahomed teve mais dois filhos: Yumna e Jamil, de 10 e sete anos, respectivamente. Jamil é uma criança super inteligente. Fala três idiomas: português, inglês e árabe. Mas prefere se comunicar em inglês. O tempo que passei em casa de Mahomed, passei conversando com Jamil. Dormi o restante do tempo. À noite, vi, com toda a sua família, um capítulo de A Favorita pela Globo Internacional que tansmite com deley de um dia a novela. Percebi como Thaís Araújo faz sucesso em África. Na manhã de domingo, saímos cedo de casa, por volta das 6h, e os termômetros marcavam 6 graus. Mahomed pôs um CD no seu automóvel com versos do Alcorão, que ele tem de recitar toda manhã. Enquanto ele repetia sua oração, eu repetia um mantra que aprendi para evocar bons fluídos em novas fases da vida: "Aum Shri Ganeshaya Namah". Traduzindo: "Salve o nome de Ganesha". Ganesha é um Deus védico, conhecido como Senhor dos Obstáculos. No aeroporto, não tive dificuldades em embarcar. Aliás, na África do Sul tudo funciona. Saí do país pontualmente às 8h45. Johannesburg é uma cidade de primeiro mundo, apesar da criminalidade. Lá, está o maior prédio da África com 55 andares. Segui para o portão de embarque. Muitos negros engraçados esperavam o vôo. Não conseguia entender o que uma madame rechonchuda, de seus 60 anos, e com um figurino à la Viúva Porcina dizia, mas fazia todos rirem. Uma negra lindíssima não parou de me paquerar. Mas eu estava elegantíssimo. Queria impressionar na minha chegada ao Congo. Não tive sorte mais uma vez na viagem. Sentou-se ao meu lado um negro todo vestido de branco, parecia mais um pai de santo, e banhado a Kouros, mas que não conseguia mascarar sua fedentina. Piorava a situação. Ele tentou puxar conversa comigo, perguntando de onde eu era e surpreendeu-se com o fato de eu ser do Recife. Cidade de onde ele estava vindo. Tentei falar com ele ora em francês, ora em inglês. Mas ele era logorréico. Tratei de fingir desmaio. Apaguei, de fato, a viagem inteira até Kinshasa, mais ou menos três horas de vôo. Na aterrisagem, todos os passageiros bateram palmas. Não contive as gargalhadas. Ao desembarcar no país, muita confusão. Minha vacina contra a febre amarela só começaria a validar no dia 5 de julho e tivemos que pagar 60 dólares para que eles liberassem meu ingresso no país. A moeda na República do Congo é o franco congolês. Quinhentos francos congoleses equivalem a um dólar. Após passar pela alfândega, onde um congolês de nome Júnior agilizava meu ingresso, pagamos a propina e fomos para a casa, num local chamado Vila, onde estou a morar. Aqui, só habitam os milionários do país. No caminho até a mansão, muito engarrafamento, afinal de contas, tratava-se de um dia de domingo de céu cinzento, como a maioria dos dias congoleses. As pessoas se dirigiam para o Rio Congo, segundo maior rio da África, que divide a República do Congo do Congo. Transportes alternativos precários e entupidos de nativos rumavam para o balneário. Uma hora no trajeto até a república, como chamamos a casa onde moramos. Aqui, um carneiro preparado pelo Eli, diretor do programa de TV do Congo Chance (nome do produto que estamos a implantar) foi servido com a minha chegada. Eli é piauiense, mas mora em Belo Horizonte, desde que o Poupa Ganha, antigo bingo na TV, chegou à cidade, levando-o como diretor de produção. Já trabalhou em outras loterias implantadas na Costa Rica e Angola. Seu savoir-faire na área é dos melhores. Bebemos muitas Skol belgas, de tamanho um pouco maior que a nossa, 700ml, e sabor mais forte. O que me deu uma baita dor de cabeça. A casa tem uma piscina imensa e pude relaxar tomando banho até o sol cair. Recolhemos-nos, em seguida, pois o mosquito transmissor da malária começa a atacar nesse horário. Bom, foi aí que este blog tomou vida. Agora são 16h15 do dia 30 de junho aqui em Kinshasa. No fim do dia, publico mais um post, contando o dia de hoje. Aguardem!
domingo, 29 de junho de 2008
A Chegada
Começo a escrever este blog no meu quarto, na casa onde estou morando em Kinshasa, capital da República do Congo, África, às 21h (17h no Brasil). É um quarto de 4x4m², mas bem aconchegante. Ainda não sei quantos quartos têm na casa, que é de propriedade da primeira-dama do país. Não contei. A casa é imensa. Ao todo somos em 7. Todos com seu aposento individual. Fora o quarto do dono da empresa: a suíte presidencial. Cheguei a ver. Ela é monumental. Quem me conhece sabe, que quando eu digo que é monumental, é porque é! Pois bem, a idéia de escrever este blog surgiu, ontem, rolando na cama, em Johannesburg, cidade no centro da África do Sul, onde estive por um dia para poder embarcar para o Congo. Com problemas de adaptação com o fuso horário e insone que sou, pensei em relatar minha temporada no continente. O que vim fazer aqui? Você deve estar se perguntado. Vim a trabalho. Implantar uma espécie de "telesena" no país. O convite surgiu no início do mês e tive pouco mais de três semanas para me organizar e embarcar para a África. Saí do Recife na sexta-feira, às 12h45, com destino a São Paulo, onde faria uma conexão para a África. O vôo, saindo da capital pernambucana, atrasou e eu teria pouco mais de uma hora para fazer o check in na South African Airways e me dirigir para o embarque. Quem já fez uma viagem internacional sabe que isso é uma loucura. Pois bem, desci de um vôo da TAM, que estava previsto para chegar em Guarulhos às 15h55 e chegou às 16h30, e iria embracar para Johannesburg às 18h. Loucura, loucura, loucura, como diria o marido de Angélica. Na esteira, minha mala demorou horrores para sair. Perdi uns 20 minutos esperando-a. Mas deu tudo certo. O vôo para a cidade sul-africana atrasou. Ufa! Deu tempo de atravessar todo o Aeroporto Internacional de Guarulhos, num dia atípico, cheio de excursões de adolescentes para a Disney; turistas japoneses que encerravam as comemorações do centenário de imigração para o Brasil; além dos tradicionais viajantes que superlotam aquele aeroporto. Eu corri como um louco para dar tempo de embarcar. Consegui! A atendente da South African disse: "sua sorte é que o vôo está atrasado". Mas eu estava predestinado para seguir para a África. Saiba porque amanhã... Hoje, estou muito cansado para continuar a postagem...
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